quarta-feira, 8 de junho de 2011

A IGREJA CORPORATIVA

Como líderes evangélicos, penso que temos nos afastado da proposta inicial de Deus para nossas congregações. Acabamos por permitir que a frieza da instituição, legalmente constituída e formalmente gerenciada, se sobreponha ao organismo vivo, de natureza orgânica que deve ser a Igreja. Consumindo assim o nosso tempo, distraindo-nos e desvirtuando-nos do nosso foco, fazendo com que desperdicemos as nossas energias naquilo que não resultará no cumprimento da nossa Missão, ou melhor, na Missão que Deus nos confiou.

Ao negligenciarmos os cuidados necessários à manter vivo tal organismo, não priorizamos os relacionamentos, o compartilhamento de tristezas e alegrias, a vida comunitária, esta aqui em seu sentido literal (uma comunidade onde as pessoas possuem coisas em comum). Acabamos por nos deixar levar pelo acúmulo de tarefas que o institucionalismo nos impõe, ou seja, um número sem fim de atividades e programações, uma quantidade incontável de informações irrelevantes, que transitam em uma velocidade etérea, que a vida moderna nos imprime diariamente, as metas e resultados que “obrigatoriamente” devem surgir como fruto visível de nosso ministério, ou ainda, o show e as luzes que são tão “imprescindíveis” aos olhos dos mais contaminados pelo veneno da instituição.


Acabamos por priorizar coisas às pessoas, e isso não é difícil de acontecer na atualidade, cuja sociedade está imersa em uma cultura onde os relacionamentos tendem a se desenvolver dentro de uma superficialidade, tanto nas questões que envolvam os relacionamentos trabalhistas, familiares, atingindo também o relacionamento entre “irmãos” e destes para com Deus, afetando assim em última instância a espiritualidade e a existência como membro no Corpo de Cristo.


Esta cultura da superficialidade tem se mostrado a cada dia uma armadilha para a vida da igreja, fazendo com que facilmente cruzemos a linha da frieza e cegueira espiritual e venhamos a mudar a percepção que possuímos, transformando-a de um organismo vivo e orgânico, composto por pessoas, com necessidades, dons e ministérios, em uma instituição, uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, com um estatuto rigorosamente elaborado, uma instituição com ações no âmbito social em prol dos carentes e que conta com um excelente planejamento orçamentário. Temos nos transformado em uma igreja‑corporativa.


Acabamos por transformar os meios em fins, onde as pessoas já não são mais o objeto do amor de Deus e, portanto nossas prioridades, mas são tão somente os “atores” encarregados para desempenhar os “papéis” que o teatro frio do institucionalismo encena hoje em muitas igrejas evangélicas. Isso nada tem de orgânico, nesse teatro não há vida.


Com efeito, cimento e tijolos, livros e manuais, sucesso e dinheiro, tem se tornado suas armas, suas bandeiras e suas palavras de ordem. A título de expandir o Reino, termina-se por expandir “seu domínio”; na intenção de ensinar o povo, que é simples e deseja somente aperfeiçoar seu caminhar com Deus com uma vida de santidade transformada no altar, lança-se mão da psicologia e de uma teologia que não se consegue traduzir em vida; Quanto a exaltação da pessoa de Deus, o que se encontra na verdade é a auto-exaltação, um hedonismo cristão que transforma O Criador em serviçal.


Que possamos refletir e retornar ao evangelho, puro e simples.