domingo, 24 de fevereiro de 2013

QUANDO MENOS É MAIS

E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia; E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.
E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou. 
Lucas 17. 11-19

Por Jefferson Paiva

Dias como os de hoje, tudo parece voltar-se para o macro, igrejas “inchadas” de multidões e não discípulos, não basta ser apenas pastor de ovelhas, tem que ser administrador, curandeiro e vender um evangelho que não pese nas costas do “fiel”, prosperidade, cura, bênçãos, mas e Deus quem quer? Através de Lucas 17. 11-19 gostaria que entendêssemos que quando se trata da graça de Deus, apenas uma pessoa pode significar muito mais do que mil pessoas que lotam um templo.

Pode parecer contraditório, devido ao título, mas esse é talvez um de meus maiores textos, maior em relação ao conteúdo, mas espero que tenham paciência, a paz. 
Um dos caminhos para Jerusalém passava pelas regiões de Samária, que ficava entre a Galiléia e a Judéia, digamos que Jesus curtia uma adrenalina, curtia grandes emoções. Mas por quê? Você pode perguntar, porque Samária era a região onde habitavam os Samaritanos, povo que por questões de raça, costumes, política e religião, simplesmente odiavam os Judeus. No cap. 9.51 de Lucas, nós podemos ter uma noção de quão grande era esse conflito, Jesus está a caminho de Jerusalém e busca então em um povoado um lugar para repousar, mas é recebido com hostilidade e João que era conhecido por ser muito amável resolve dar uma dica sobre o que fazer em uma situação dessas, seu conselho é o seguinte: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir”? Ou seja, esse é o conselho de alguém que transborda amor, brincadeiras a parte, esse era o clima entre Judeus e Samaritanos. 
Apenas um parêntese, Em 2009 consegui um estágio no maracanã pela SUDERJ no parque aquático Júlio Delamare, no projeto SUDERJ EM FORMA. Eu costumava dar aulas ou apenas auxiliar o professor com turmas de qualquer faixa etária, certo dia o auxiliava com uma turma de crianças de 7 a 8 anos, quando o professor teve a brilhante idéia de dar aula para as crianças na piscina de saltos ornamentais, que se não me engano, possui no raso uns 8 metros de profundidade. Percebi e achei interessante que nenhuma criança se amedrontou com a profundidade, todas elas pulavam na piscina sem medo algum e rapidamente emergiam. O professor me pediu para que ficasse do lado de fora orientando e de olhos abertos caso algo acontecesse, mas em um dado momento o professor pediu-me que entrasse na piscina porque estava tranqüilo e todas as crianças haviam assimilado a atividade, então pensei: se as crianças que estão aprendendo a nadar pularam sem medo, eu que sei nadar vou fazer o mesmo! Então pulei, mas para o meu desespero descobri que 8 metros de profundidade era muito significante para alguém que como eu possuía uma habilidade em relação ao nado tão limitada, quanto mais me desesperava mais eu submergia e o fundo nunca chegava, em um curto espaço de tempo pensamentos rondaram minha mente, tais como: vou morrer, estou pagando mico, haja vista, que sou estagiário de natação ou se o salva-vidas pular pra me salvar nunca mais eu volto aqui, será muita vergonha! Mas em meio ao desespero eu busquei força de onde não tinha, bati os braços e as pernas e consegui voltar à superfície, quando voltei todos me olhavam espantados, e de repente um aluno que gostava muito de mim disse-me o seguinte: professor, você nada muito, afundou e voltou rapidinho! Mal sabia ele o esforço que fiz, então pra não ficar mal eu disse: está vendo, continue fazendo aula com o tio que você nadará igualzinho. Resumindo, nunca mais pulei em piscinas muito fundas, tenho evitado não por medo, mas por respeito. 
 Pode parecer engraçado ou não, mas essa ilustração é pra entendermos que é bem verdade que nossa natureza humana busca mesmo é fugir de complicações, quem em sã consciência resolve ir de encontro a elas? Somente Jesus. O cap. 17.11 de Lucas nos mostra que Jesus viajava para Jerusalém e passava por Samária e Galiléia e isso significava ser rejeitado, ser maltratado, mas porque Ele passa por lá então? Jesus é masoquista? Gosta de sofrer? Não ele simplesmente não tem nenhuma espécie de preconceito, não mede esforços quando o objetivo é salvar uma alma. Passando por Samária, Jesus nos dá a seguinte lição: é preciso enfrentar nossas diferenças, Passar em território inimigo significa enfrentar preconceitos, fobias, rancores, mágoas etc, ou seja, nessa eterna luta entre a carne e o espírito é preciso manter o controle e vencer a si mesmo... 
Ao entrar na aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, mas ficaram de longe. Porque ficaram de longe? Por medo, respeito? Não! A lei de Moisés em (Lv. 13.46) e (Nm. 5.2), mandava que os leprosos ficassem longe das outras pessoas, ou seja, assim que a doença fosse detectada, a pessoa era automaticamente afastada de tudo, familiares, vida social, amigos, bens, emprego... Certamente perdiam a auto-estima e alegria de viver, ou seja, parafraseando um grande poeta do futebol brasileiro, Ronaldinho Gaúcho, quando diz “Flamengo é Flamengo”, eu digo, “dez leprosos são dez leprosos, e com dez leprosos não dá pra formar um time de futebol e chamar um goleiro, com dez leprosos, não dá pra dividir cinco pra cada lado e jogar um futebol de salão, eles são isolados e jogados a própria sorte, eu encontro então o que motivou Jesus a passar por Samária, os dez leprosos! até porque eles jamais poderiam encontrar Jesus, eles não poderiam organizar uma caravana ou excursão pra procurar Jesus, seriam rapidamente impedidos, devido ao seu regime de total exclusão social, então posso afirmar que foi Jesus quem foi ao encontro deles. 
Reconhecendo o poder e a fama de Jesus eles prontamente clamam por Ele, foram humildes e reconheceram que não há esperança a qual deva firmar a fé que não esteja em Jesus. Se fossem soberbos não clamariam, o orgulho deles os impediria de realizar um feito tão constrangedor, quanto gritar em público, mas viram em Jesus esperança. 
Jesus era extremamente inteligente, quando ele foi abordado pelos dez leprosos ele percebeu que eram cumpridores da lei, pelo fato de não se aproximarem de outras pessoas, como ordenava a lei, certamente entre os dez havia também Judeus, então, acredito que sem que eles percebessem Jesus lhes propôs um teste, lhes mandou ir ao sacerdote para que fossem inspecionados (o que não era errado, pois assim ordenava a lei em Lv. 14.1-32, com relação aos leprosos que fossem sarados). Eles ainda não tinham a certeza, porém, mesmo assim eles foram com toda fé que seriam curados, então, não no mesmo instante, mas durante o caminho eles foram curados. 
Mas aí eu fico a me perguntar, quem na verdade foi curado? Acredito que Jesus quis que entendêssemos quem era o verdadeiro adorador e quem eram os religiosos. E quantas e quantas vezes, não somos mais religiosos que adoradores? Quantas e quantas vezes não somos excelentes teólogos na teoria, mas péssimos cristãos na prática? Quantas e quantas vezes não nos apegamos àquilo que é insignificante perto da significância de Cristo em nossas vidas? 
Brigamos por bobeiras, discutimos por assuntos irrelevantes, e em meio as nossas discussões e adaptações de um evangelho mais suportável, deixamos de dar assistência aos leprosos que há lá fora, indo mais além, às vezes não paramos e percebemos que os leprosos na verdade somos nós, e por fim quantas vezes não valorizamos muito mais o culto em virtude da benção recebida do que aquele que nos abençoou? Pensemos sobre isso, enfim, ainda sim Jesus curou a todos, sem perguntar sua nacionalidade, religião, etc. Ele não fez acepção de pessoas. A cura acontece pela misericórdia divina e não pelo merecimento do enfermo. 
Jesus ficou surpreso porque somente um voltou para agradecer, e ainda mais o que voltou era Samaritano. 
Quando se prega sobre esse texto muito se fala acerca dos nove que foram embora, sobre ingratidão e por aí vai... Mas gostaria de enfatizar o que voltou, ele sim estava vivendo o evangelho, porque o evangelho do Reino de Deus, que Jesus veio nos anunciar é um evangelho que envolve relacionamento, comunhão, muito mais do que regras e bons costumes. 
O verdadeiro evangelho abrange esferas políticas, raciais, sociais, espirituais, questões polêmicas... O verdadeiro evangelho não foge, mas vai de encontro a homossexuais, prostitutas, viciados em drogas, alcoólatras, pessoas renegadas pela sociedade, porém, mais do que isso, o evangelho vai de encontro a mim e a você, que apesar de nossa pseudo-perfeição temos que admitir, precisamos de Cristo, porque cada dia é uma batalha. A história dos nove leprosos se encerra com a cura da doença, da cura em diante, não se sabe ao certo o futuro deles, a história do único que voltou não se encerra, pois no último versículo Jesus diz o seguinte: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou. A história dele não acaba, pois daquele dia em diante viverá eternamente, pois sua fé em Jesus Cristo o Salvou.
Pessoas hoje em dia buscam cura e rápida resolução para os seus problemas, quando recebem o que esperam dificilmente voltam para agradecer ao Deus da benção, Igrejas assim estão lotadas, como se Deus fosse um gênio da lâmpada, entendamos que muito mais do que nos curar, Deus que se relacionar conosco.
Como é a nossa relação com Deus? Não sejamos como os nove. Nem sempre quantidade significa qualidade, nove curados se foram um salvo voltou. Nesse caso, precisamos ser a exceção. Além da bênção, precisamos do abençoador. O único Deus, único Senhor e único Salvador, boas ações não nos levarão ao céu, somente a graça de Deus e a fé em Cristo Jesus é capaz de nos salvar. Amém