terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Falar com Deus hoje

Quantos ainda hoje acreditam mesmo na oração como o melhor meio de comunicação com Deus? Quem ainda crê, na verdade, que o Senhor se importa com nossas aflições ou com os acontecimentos do cotidiano que nos afetam, influenciam e preocupam? Haverá alguém que ainda separa um tempo para orar, dedica alguma hora do dia ou da noite para falar com Deus, crendo que está sendo ouvido?

Vivemos num mundo bem diferente daquele que os nossos antepassados habitavam. Hoje sabemos que o raio não é uma manifestação da divindade, e sim um fenômeno natural explicado pela ciência. Quando alguém está com dor de cabeça, simplesmente toma uma aspirina para resolver o problema. Atualmente as cirurgias são realizadas por computadores ultramodernos, com uma precisão inacreditável. Aparelhos metereológicos são capazes de avisar com antecedência e de modo detalhado onde, quando e com que intensidade podem ocorrer tempestades ou furacões. Muitas pessoas possuem planos de saúde, cadernetas de poupança, fundos de previdência e contratos de seguro para o automóvel e a residência. Para quê, então, precisamos da intervenção sobrenatural de Deus?

A grande questão sobre a validade ou não da oração repousa justamente nesse ponto: numa sociedade capitalista como a nossa, de consumo e lucro, só o que parece útil do ponto de vista do ganho material e da vantagem financeira desperta o real interesse das pessoas.
Acontece que a oração não deve ser vista como varinha de condão, realizando nossos desejos mais caprichosos e egoístas, nem como pronto-socorro em que um ser todo-poderoso fica de plantão para nos atender sempre que precisamos, ou como um palco no qual subimos para assistir uma espalhafatosa exibição de poderes prodigiosos. A oração como barganha ou negociação comercial, em que oferecemos contribuições monetárias para obter bênçãos financeiras, e a oração que não passa de chantagem com Deus, quando dizemos que, se Ele não atender nossos pedidos, seu nome será envergonhado, é mero fruto da cultura neoliberal em que estamos inseridos.

Na verdade, se a ação de Deus fica restrita apenas a áreas em que a tecnologia e a ciência estão ausentes, o aumento do conhecimento humano vai gradativamente diminuindo o espaço da presença divina. Quero dizer com isso que não devemos buscar a Deus em oração somente quando não há respostas da ciência para nossas carências. Afinal, a medicina falha e as máquinas param. Precisamos recorrer a Deus também no campo das nossas capacitações, pois não somos perfeitos, nem o conhecimento humano é absoluto. A mesma ciência que descobriu a cura da tuberculose, deu origem também à bomba atômica. Pode salvar e matar. A orientação de Deus nunca deixa de ser necessária.

Porém, o objetivo essencial da oração é manter a nossa comunhão com o Senhor. Por ela podemos desfrutar da sua presença em nós e conosco. Podemos meditar diante da sua misericórdia e refletir sobre sua palavra. Como acontece com um filho que entra no escritório do pai apenas para senti-lo mais perto e, em conseqüência, sentir-se mais seguro pelo fato de saber que o pai está ao seu lado.

A oração revela nossa dependência, promove nossa contrição, ajusta nossa visão, reordena nossos sentimentos, motiva nossa confiança, amadurece nossa fé, aguça nossa consciência, quebranta nosso coração, umedece nossos olhos, renova nossas forças, fortalece nossa esperança, aumenta nossa paciência, afina nossa compaixão.

Enfim, como dizia C.S. Lewis, a oração — mais do que para transformar as coisas ao nosso redor — serve para transformar a nós mesmos.