quarta-feira, 27 de junho de 2012

O LUGAR DO PASTOREIO

Por Nelson Bomilcar

Comunidades cristãs vão se formando com novas caras e facetas no Brasil, em todas as classes sociais. Casas, escolas, hotéis, clubes e ginásios tornam-se caminhos diversos, mais interessantes e pertinentes dependendo da realidade urbana para sua instalação. Pensar em ajuntamento de cristãos nos templos com projetos arquitetônicos tradicionais ou contemporâneos, com médios e grandes espaços cada vez mais difíceis e raros, e com toda sua complexidade legal, financeira e estrutural, vai se tornando um projeto menos desejável e viável para muitas igrejas e grupos eclesiásticos.
Em cima dessa realidade desafiadora e pouco encorajadora, o pastoreio é ainda um caminho mais complexo, no qual, muitas vezes, a expectativa pela ação pastoral diante das necessidades das pessoas em dor, sofrimento e outros diversos clamores vai dando lugar a sentimentos e percepções extremas: uma parte do rebanho continua desejando esse cuidado pessoal e acolhedor dos pastores e da liderança, enquanto que gente com boa quilometragem, rodada nas igrejas, já “jogou a toalha” e não acredita mais ser possível esse pastoreio, vivendo uma insatisfação contínua. Alguns buscam caminhos de sobrevivência em movimentos localizados e nas redes sociais; outros simplesmente desistem e se afastam dos ajuntamentos.
Pela extrema valorização da figura ou da autoridade de pastores, numa cultura como a nossa – na qual os grandes líderes são incensados e onde se cria e nutre uma relação de extrema e inapropriada dependência –, vai se esvaziando o cuidado e a responsabilidade de um para com outro no rebanho. Desvalorizam-se os membros do corpo de Cristo, com seus dons e funções, e o senso de responsabilidade de cada irmão em oração, acolhimento, compartilhamento, conselho mútuo, exortação, visitação, serviço e fortalecimento de amizades espirituais. Jogar a responsabilidade do cuidado pastoral somente sobre uma pessoa ou uma reduzida liderança é, no mínimo, irreal, imprudente e imaturo, seja em grandes ajuntamentos ou não. Claro, não se pode minimizar a importância daqueles que receberam dons específicos para serem pastores e mestres, presbíteros e diáconos, conforme a recomendação bíblica. Mas tal esvaziamento reflete, em primeiro lugar, o descuido de muitos irmãos no cultivo de uma espiritualidade saudável. Eles abriram mão da oração e da meditação na Palavra, da comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo em primeiro lugar. A desvalorização da intimidade e do alimento da fé, e de uma dependência maior de Deus, foi deixando lacunas significativas.
Em segundo lugar, a supervalorização de pessoas, e a dependência exagerada delas, acabou trazendo como consequência a superficialidade Uma vida superficial, sem características de profundidade e maturidade, e destituída de uma visão encorajadora da fé cristã e da missão que nos foi confiada por Jesus Cristo é o resultado disso. Acabamos nutrindo uma visão egoísta e antropocêntrica, quase sempre ignorando o próximo a quem temos de servir e ajudar com o que somos e possuímos. Membros de ajuntamentos vão se tornando mais exigentes, achando que as igrejas precisam saciar suas necessidades nem sempre legítimas diante da proposta bíblica da natureza e missão da Igreja. Então, o mercado da fé percebe a lacuna e acaba se instalando para compensar aquilo que nós não encontramos no pastoreio ou na ação pastoral cuidadosa.

Seja com que formato for e onde se instalarem, os ajuntamentos cristãos não podem abdicar da verdade do Evangelho, da mensagem das boas novas e de todo o conselho de Deus que é a sua Palavra. Ora no meio de desertos e provas, ora em pastos verdejantes e águas tranquilas, ovelhas precisam, em primeiro lugar, depender mais do pastor Jesus e buscar crescimento nesta relação de dependência e mentoria; em outras palavras, depender mais de Deus do que de homens, sem desmerecer o valor do corpo de Cristo e das pessoas e líderes que o Senhor tem colocado em seu caminho. Tudo isso para sermos melhores testemunhas, melhores servos, melhores cristãos, vivendo a experiência comunitária de forma consciente e responsável e que não nos deixe perder o compromisso e a vivência da missão cristã – e, muito menos, nossa responsabilidade de anunciar e sinalizar o Reino.