domingo, 12 de maio de 2013

A FÉ, A MENSAGEM E O TESTEMUNHO

De sorte que fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus. 
Romanos 10.17

Uma das expressões que mais ouvi nos últimos tempos de caminhada cristã tem sido a tão famosa sentença de São Francisco de Assis, a saber, Pregue o evangelho a todo tempo. Se necessário, use as palavras. Pois bem, a última vez que ouvi foi há poucas semanas, em um culto, e agora venho, enfim, falar a respeito do pensamento que tenho sobre tal sentença, e o quanto esta, em minha humilde opinião, pode ser nociva para a propagação do evangelho do Reino.

Muito provavelmente você já tenha ouvido essa expressão de algumas pessoas, e normalmente, o impacto causado por ela nos dias em que vivemos, devido aos testemunhos vergonhosos que vemos todos os dias, é grande. Com certeza essa frase nos remete a um comprometimento verdadeiro com a mensagem que pregamos, levando-nos a pensar da importância de ter um testemunho ileso e verdadeiro, de acordo com o que falamos.
Mas creio que os benefícios param por aí, e a partir daqui começam os tropeços de tal pensamento.
Quando lemos o versículo destacado acima constatamos facilmente que a pregação verbalizada tem grande importância na construção da fé do indivíduo, de maneira que o testemunho funciona como um acompanhamento, assessorando a mensagem levada por nós.
O problema com a expressão abordada é que o testemunho é colocado em lugar de destaque, quando na verdade a mensagem da cruz deve ocupar esse lugar. O nosso testemunho deve andar de acordo com o que pregamos, mas isso deve ser consequência de uma palavra que nos causa transformação.
Ao lermos os evangelhos vemos Jesus explanando a mensagem do Reino e vivendo perfeitamente de acordo com o que ensinava. Algumas vezes Ele invertia o processo, agindo primeiro e depois ensinando por parábolas sobre o que Ele fizera. Porém, em ambos os casos, Jesus não deixava de falar da mensagem. Ele nunca deixava de pregar![1]
Me parece que muitas vezes a frase questionada serve de apoio para aqueles que, por algum motivo, deixam de explanar a mensagem do evangelho, valendo-se de tal expressão para justificar a falta de verbalização do evangelho de Cristo, como que se testemunhando por meio de ações, se tornassem livres da responsabilidade de pregar.
O testemunho somente, não nos diz quem é a pessoa realmente, mas a mensagem pregada por ela revela a sua crença e o seu coração[2]. Dessa forma vemos muitas pessoas praticarem bons testemunhos, porém, não possuindo vínculo algum com Cristo, afinal, o próprio Cristo nos alerta para o fato de que até os homens, que são maus, vendo seus filhos lhe pedirem pão, não lhe darão pedra[3], além do fato de que no Grande Dia do Senhor, muitos requererão a entrada na vida eterna, por meio de seus feitos em nome de Jesus, porém não alcançarão tal gozo[4].
O grande destaque lançado sobre o bom testemunho me chama a atenção para o fato de que muitas pessoas se preocupam mais com as obras do que com a explanação da mensagem. O testemunho é algo natural do cristão, e ele deve remeter à transformação que a Palavra causa na vida daqueles que crêem e se permitem serem moldados pela Palavra.
É claro que nos dias atuais, em que vemos pastores e cristãos de modo geral, envolvidos em escândalos criminosos, sexuais e vexatórios, um bom testemunho é algo de extrema relevância, mas ainda assim, a Palavra deve ocupar lugar de primazia. Em tempos como os nossos a mensagem deve ocupar o papel de maior importância, sendo relacionada ao bom proceder dos cristãos, de maneira que as pessoas, perdidas na incoerência de um mundo hipócrita, possam enxergar na igreja um povo que preza por viver verdadeiramente aquilo que prega.
A mensagem que carregamos conosco é maravilhosa, é redentora, é sublime e graciosa. A mensagem da cruz é a identidade da Igreja, não podendo esta ser separada daquela. Logo, se a mensagem é a identidade da Igreja, ela passa a ser a nossa identidade, pois é através dela que somos identificados no mundo como cristãos.
Dessa maneira, com toda a tranquilidade no coração, eu discordo plenamente da afirmação de São Francisco de Assis. Embora eu reconheça a relevância do bom testemunho em todo o tempo, não posso diminuir a relevância da mensagem falada. Portanto, depois de tudo isso, gostaria de propor uma "nova" sentença para nós, que julgo ser mais adequada para a Igreja, a saber, Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações [...] Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado [5], e esta foi o próprio Jesus Cristo que nos disse.


Notas:
[1] João 4. 3 - 42
[2] Mateus 12.34; Lucas 6.45
[3] Mateus 7. 9 - 11; Lucas 11. 11 - 13
[4] Mateus 7. 21 - 23
[5] Mateus 28.19 e 20